E somente porque eu escolhi uma frase do Caio Fernando Abreu pra me basear aqui, vou colocar um dos meus trechos favoritos dele. É do livro Os dragões não conhecem o paraíso, e do conto 'A Outra Voz'.
'Você vai me abandonar e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, meu cordão umbilical, a ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e minha ausencia não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora, sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar o seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você se esquecerá, como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrece em silêncio no quarto.'
Não sei, mas quando leio esse trecho, que inicialmente deveria relatar um compromisso entre homem e mulher, me vem a cabeça, quase que por instinto, a relação de maternidade. Afinal, no início a mãe é nosso laço único com a vida, sem ela não existimos, não somos nada. Seres completamente dependentes. Mas com o tempo vamos nos afastando, a necessidade de proteção, de uma constante preocupação vai acabando. Você já não precisa dela para segurar-lhe a mão ou dizer que não têm monstros dentro do armário. Ela já não é mais tua fonte única de comida, e você não precisa mais dela como sua ponte de comunicação. E isso os afasta. Sempre. Não existe ligação eterna, por mais forte que ela seja, no fim, você sempre irá terminar sozinho.
Cabe a você, e somente a você, cultivar estes laços. Já que naturalmente, a mãe vai cortá-lo, uma hora ou outra. Mas não é fácil pra nenhum dos lados, creio eu.
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