Ao som de
Longe do Meu Lado - Legião Urbana
Longe do Meu Lado - Legião Urbana
O ano começou a exatos 23 dias, no entanto, não havia dado as caras por aqui até agora. Por quê? Talvez porque eu não tenha tido coragem, ainda, de dar as caras no mundo real. Sim, faz um mês, precisamente hoje, que saí da minha casa, em Curitiba, e iniciei meu processo de reclusão aqui, em Santo André. E neste mês que se passou, tanta coisa aconteceu que eu simplesmente não consegui enfrentá-las, pelo menos não como deveriam ser enfrentadas.
Acontece que enfrentar a vida, agora, é muito mais difícil do que parece. E eu não quero, e sinceramente, não posso fraquejar. Porque eu sei, que assim que eu der as caras pra vida, e encontrar algumas pessoas, meu mundo vai, novamente, desabar.
Mas enfim, não acho justo e nem conseguiria começar a escrever aqui novamente, sem ao menos fazer uma pequena menção a Ela. (: Talvez seja, para mim, o melhor rito de passagem que eu poderia dar a Ela.
Ela sempre me dizia, a vida toda, que tudo tem seu tempo, tudo tem sua hora e nada escapa da vontade de Deus. E essa é uma verdade muito fácil de se assimilar. Muito fácil. Quando não se trata de alguém que você ame e seja essencial a você, é claro. Deus poderia levar qualquer um, sim. Mas não Ela. Ela, acreditava eu, nunca partiria.
Quando eu era criança, e via, desde que tenho memória, todo o sofrimento que ela sempre passou, eu temia. Tantos cânceres e cirurgias, tantas dores e doenças. Pequena, eu imaginava que ela podia dormir para sempre, como aquela tia velha que tinham me levado pra ver no cemitério. Mas não era igual a tia velha. Não. Porque Ela, Ela me faria falta. E sem Ela, eu sofreria. E eu rezava, como Ela me ensinava. E pedia àquele tal Papai do Céu que não A levasse, que deixasse Ela cuidando de mim. E sabe, no geral o tal Papai do Céu foi bem bonzinho.
Os cânceres não A levaram. O destino sim, me levou pra longe dEla. Mas mesmo de longe, não havia um só dia que eu não falasse com Ela. Pra pedir ajuda, pra chorar, pra rir, ou simplesmente só pra ouvi-la. De longe, Ela já me fazia uma falta danada.
E agora, que os telefonemas cessaram, as longas conversas, as risadas, broncas e choros se foram. E a falta que Ela me faz? Não cabe dentro de mim. Conversei com o tal do Papai do Céu esses dias, e tentei negociar sabe? Falei o quanto eu gostaria de ter uma ligação direta ali no céu. Nem que fosse só de vez em quando. Pra quando a saudade apertasse muito, eu escutasse aquela voz calma dEla, me dizendo que tudo passa, e que nada escapa da vontade de Deus. Mas não teve negócio. E o tal nem se explicou. Mas eu sei bem do que se trata. Ele não quer é ter que dividi-La comigo, não.
E eu estou tentando, juro que tô. Tentando ser forte e não chorar. Tentando aceitar, que depois de tantos cânceres, foi uma gripe que A levou. Tentando acreditar que existe um céu, e que é pra lá que Ela foi. Até porque, se Ela, que foi como Ela foi, não tiver ido pro céu, então ninguém mais vai. Tentando, desesperadamente, seguir em frente. E viver. Mesmo com buracos enormes perfurando toda minha alma, todo meu ser.
E eu vivo, mesmo quase sem querer. E somente porque eu sei que é assim que Ela gostaria que fosse. Mas é fato, a falta que Ela me faz, não, não cabe em mim.
Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz. [Eclesiastes, 3]
Um tanto quando dolorida, machucada e saudosista.
Um beijo, Bá.


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